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1858 – 2008 : 150 anos de nascimento de Émile Durkheim


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ENSAIO

1858 – 2008 : 150 anos de nascimento de Émile Durkheim

Por : Herik Zorneck

Conforme afirma Laurent Mucchielli : “ Os grandes homens , sem exceção, tiveram professores e não inventaram tudo , reproduziram como os outros os preconceitos e os estereótipos culturais os mais gerais de sua época , tiveram as mesmas fraquezas narcísicas ( muitas vezes mais do que os outros ! ) , em suma, foram simplesmente homens e, mais ainda , homens de seu tempo . “

Isso se aplica também à obra desse grande sociólogo , do qual comemoramos os 150 anos de nascimento : Émile Durkheim .

A obra de Durkheim , e O Suicídio em particular , deve ser analisada dentro do seu contexto histórico , que é o período de estabelecimento e institucionalização da sociologia – enquanto disciplina científica – na França do final do século XIX .

Em especial , o período em que foi escrita influencia , através do diálogo com seus interlocutores contemporâneos , muito da metodologia , dos temas , e também algo da forma de exposição do argumento e dos posicionamentos teóricos de seu autor .

Em primeiro lugar, o período de 1880-1900 foi a época da generalização do uso da estatística nas ciências humanas , popularizada pelo demógrafo Jacques Bertillon . Embora outros autores tenham utilizado com sucesso as estatísticas para colocar em evidência as leis de funcionamento da sociedade , o uso, por Émile Durkheim , de um impressionante aparato estatístico para comprovar suas teorias em O Suicídio , foi muito bem recebido pela crítica da época .

Em relação à época atual, contudo , devemos ressaltar que o instrumental estatístico sofreu uma grande sofisticação , tornando o método de Durkheim ultrapassado , e que sua base de dados é atualmente criticada como insuficiente .

No período imediatamente anterior à institucionalização da sociologia , o estudo cientifico das condutas humanas era deixado a cargo das ciências biomédicas , que utilizavam uma abordagem naturalista ( Broca , Lacassagne , Cesare Lombroso ) , e também bastante influenciado pela visão contratualista e utilitarista da sociedade que – inspirada em modelos econômicos – via no indivíduo a unidade primordial e o principal agente dos fenômenos sociais ( Spencer ) .

À crítica de Gabriel Tarde a esses modelos evolucionistas , socio-darwinistas e bio-criminologistas seguiu-se a crítica ainda mais radical de Emile Durkheim , para o qual a associação do homem em sociedade produz fenômenos de natureza sui generis , ou seja , de natureza propriamente social e que – por isso mesmo – reclamam instrumentos de análise e interpretação específicos, pois “um fato social só se explica por outro fato social “.

Outra fonte inegável de inspiração de Durkheim foi o positivismo de August Comte . Podemos aqui apontar vários aspectos dessa influência : seu esforço para instituir a sociologia – enquanto disciplina acadêmica – baseada no modelo das ciências naturais ; na sua determinação em – através do emprego de uma rigorosa metodologia científica – atingir a “ realidade “ dos fenômenos descritos ; em sua insistência na monocausalidade dos fenônemos ( para cada efeito pode haver somente uma única causa ) ; em sua disposição de tratar os fatos sociais como “ coisas “ , isto é , como realidades externas à subjetividade das consciências individuais ( no que foi mal – compreendido e muito criticado na época da publicação de seu livro anterior : As Regras do Método Sociológico ) .

A terminologia científica corrente no final do século XIX ( em especial da Física ) é uma visível influência no pensamento de Durkheim . Isso pode ser observado ao longo de todo O Suicídio ( por ex. ) : o indivíduo nervoso é aquele que ‘ tem os nervos à flor da pele ‘.

O exemplo mais marcante , contudo , é o das “correntes suicídogenas “ . O século XIX foi obcecado pelo modelo mecânico do universo , pela idéia de que uma força só age entre dois corpos através de um meio físico que a transmite, como ondas que se propagam na água .

Quando Newton, no século XVII, formulou sua teoria da gravitação universal , parecia que a gravidade era uma força que agia à distância entre os corpos , prescindindo de um meio material para transmitir sua influência. Newton rejeitou essa hipótese de transmissão à distância da gravidade, mas deixou o problema sem solução.

Posteriormente , para solucionar o problema da natureza da luz , Fresnel (1788-1827) desenvolveu uma teoria ondulatória , que requeria um meio material através do qual a luz pudesse se propagar.Para solucionar essa dificuldade é que surgiu o conceito de éter luminífero .

Assim como o éter é um meio que transmite as ondas luminosas entre dois corpos físicos ( uma estrela e um planeta , por exemplo ) , parece que a corrente suicidógena tem – na obra de Durkheim – um papel análogo , ou seja, é um meio social que transmite ondas ( “estados de espirito” , sentimentos, influências ) da sociedade para o indivíduo .

Assim , tentando rebater as teorias biológicas e contratualistas de sua época , e esforçando-se por estabelecer a sociologia como um campo distinto de investigação cientifica ; Durkheim foi levado a “ personificar “ a ação da sociedade que – através de forças sociais – domina a ação dos indivíduos , a ponto de que eles parecem não ter vontade própria , sendo meros fantoches à sua mercê.

Segundo afirma Raymond Aron : “O risco da interpretação ou da terminologia de Durkheim reside na substituição da interpretação positiva , que combina sem dificuldades fatores individuias e coletivos , por uma concretização mítica dos fatores sociais , transfigurados em força supra-individual , novo Moloch a escolher suas vítimas entre os indivíduos . “ ( A geração da Passagem do Século . As Etapas do Pensamento Sociológico )

Em alguns pontos de O Suicídio , fica evidente que o modelo de Durkheim carece de uma teoria da interação inter-individual . Em especial em sua refutação da teoria da imitação de Gabriel Tarde , existe o reconhecimento de que há alguma margem de interpretação das normas sociais por parte dos indivíduos .

Como contraponto às teorias de Durkheim , podemos recorrer ao modelo de outro grande sociólogo , seu contemporâneo : Max Weber e sua teoria da ação social .

Através de uma metodologia que se opõe à total assimilação das ciências sociais ao quadro teórico das ciências naturais , Weber concebe o objeto da sociologia como “ a captação da relação de sentido “ da ação humana , onde o conhecimento do fenômeno social seria obtido através da extração do conteúdo simbólico da ação que o configura , sendo a ação : “ aquela cujo sentido pensado pelo sujeito ou sujeitos é referido ao comportamento dos outros ; orientando-se por ele o seu comportamento “ .

Já no século XX , Talcott Parsons – influenciado tanto por Durkheim como por Weber – em seu trabalho “ A Estrutura da Ação Social ”, faz importantes contribuições para aprimorar o modelo teórico da relação entre indivíduo e sociedade , como a distinção que propõe entre valores e normas, além do conceito de papel .

Para a crítica contemporânea, O Suicídio é o único livro de Durkheim cuja contribuição teórica à sociologia ainda hoje não foi totalmente ultrapassada e se conserva como relevante , merecendo um destaque especial o caráter seminal do conceito de anomia .

Segundo Durkheim , a crise moral da sociedade moderna – conforme percebida em sua época – devia-se ao desequilíbrio entre o aumento, cada vez mais rápido, da densidade material da sociedade e a densidade moral da mesma , já que o processo de adequação da regulamentação social ( leis, costumes , etc ) às novas realidades criadas pelo progresso da economia é – inevitavelmente – mais lento do que o ritmo das mudanças , tornando a sociedade – seja nas crises , seja nas transformações favoráveis – provisoriamente incapaz de exercer sua ação reguladora sobre as paixões humanas .

Para Durkheim as relações entre os indivíduos em sociedade devem ser nômicas ( i.e. devem ser regulamentadas por ”leis sociais” ) . Enquanto nas sociedades tradicionais as crises de regulamentação poderiam ocorrer de quando em quando , provocando aumento nas taxas sociais de suicídio até que fosse encontrado um novo equilíbrio, nas sociedades modernas a anomia é o modo de funcionamento normal.

Segundo Durkheim : “ Se ( … ) a anomia sempre se produzisse apenas por acessos intermitentes e sob formas de crises agudas , ela poderia fazer a taxa social de suicídios variar de quando em quando ; não seria um fator regular e constante . Mas há uma esfera da vida social em que ela está atualmente em estado crônico : é o mundo do comércio e da industria .

Há um século, com feito , o progresso econômico tem consistido principalmente em liberar as relações industriais de toda a regulamentação . Até tempos recentes , todo um sistema de poderes morais” ( religião , Estado , e – na própria esfera dos negócios – as corporações de ofício medievais ) ” tinha a função de as disciplinar . “

Mais adiante, escreve a respeito da economia nas sociedades modernas : “Eis a razão da efervescência que reina nessa parte da sociedade mas que, dela, estendeu-se para o resto . É que nela o estado de crise e de anomia é constante e, por assim dizer, normal .”

Ao desenvolver o conceito de anomia como forma de explicar o movimento constante de crescimento das taxas de suicídio , Durkheim conseguiu , sem dúvida , incorporar-se ao seleto grupo de pensadores que conseguiram captar – através de diferentes formulações – os traços mais característicos de nossas modernas sociedades industriais .

Compare-se sua argumentação ao longo do capítulo V do Livro II ( sobre o papel da religião , do Estado e das corporações de ofício na sociedade medieval e na sociedade moderna ) com a de Hannah Arendt em seu livro A Condição Humana , em especial o item 6 do Capítulo II , denominado “A Promoção do Social “ .

Compare-se ainda esses dois trechos : ( … ) “ a indústria em vez de continuar sendo considerada como um meio para um fim que a ultrapassa , tornou-se o fim supremo dos indivíduos e das sociedades . Mas então os apetites que ela põe em jogo viram-se livres de toda a autoridade que os limitasse . Essa apoteose do bem-estar , santificando-os , por assim dizer, colocou-os acima de toda lei humana . “ ( Émile Durkheim , O Suicídio , Capítulo V , Livro II )

“ A sociedade é a forma na qual a dependência mútua em prol da subsistência ( … ) adquire importância pública . ( … ) A promoção do labor à estatura de coisa pública , longe de eliminar seu caráter de processo – o que teria sido de esperar ( pois ) os corpos políticos sempre foram projetados com vistas à permanência e suas leis sempre foram compreendidas como restrições impostas ao movimento – liberou , ao contrário , esse processo de sua recorrência circular e monótona e transformou-o em rápida evolução , cujos resultados, em poucos séculos , alteraram inteiramente o mundo habitado .” ( Hannah Arendt , A Condição Humana , Capítulo II , item 6 : A Promoção do Social )

Atualmente vivemos um período conturbado de globalização econômica , um período onde a expansão do comércio ( e até mesmo uma ligeira inflação global , impulsionada pelo preço das commodities ) transformou-se bruscamente em uma crise dos mercados financeiros e uma recessão, que muitos analistas consideram que será a mais grave desde A Grande Depressão que começou com o crash da bolsa em 1929 .

Agora nós sabemos que – para grande desgosto dos contemporâneos de Durkheim – o século XX não foi uma versão melhorada do século XIX e que, portanto – como ele tinha advertido – o desenvolvimento técnico – científico e o progresso material da sociedade não podem resolver, sozinhos, os nossos problemas .

Como os problemas sociais do final do século XIX ainda ecoam em nossa época e continuam sem solução, a obra de Durkheim continua atual . Apesar do grande avanço em termos de metodologia da estatística e – por que não dizer – da própria sociologia em seu arsenal teórico, não temos nenhum Durkheim para juntar os fatos , a metodologia e uma teoria e transformá-los em uma síntese relevante .

 

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1 Response to “1858 – 2008 : 150 anos de nascimento de Émile Durkheim”


  1. 1 lindemberg
    agosto 23, 2010 às 6:35 pm

    MUITO INTERESSANTE


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