02
abr
10

Thomas Pynchon : O mestre da paranóia


” Não existe Literatura e nem Arte sem paranóia . Provavelmente não haveria nem mesmo Civilização . A paranóia é o mundo . É a tentativa de dar sentido ao que não tem … “

Thomas Pynchon

Thomas Pynchon

 

Pode parecer incrível , mas esse ” idiota com cara de bobo alegre ” é o maior escritor vivo atualmente, um dos expoentes da contracultura norte americana e da ” literatura pós moderna ” e autor de livros consagrados, tais como : ” O Arco Íris da Gravidade ” , ” V.”, ” Mason e Dixon ” e , mais recentemente  , ” Vício Inerente ” e  ” Against the Day ”  ( o último ainda sem tradução para o português ) .

BIOGRAFIA :

Thomas Ruggles Pynchon, Jr. , nasceu em nos EUA ( Long Island ) em 1937 e terminou o ensino básico em 1953 .

Passou então a frequentar o departamento de Engenharia da Universidade de Cornell,  mas abandonou o curso no segundo ano para juntar-se à marinha americana. Em 1957,  retorna a Cornell para cursar Inglês. Seu primeiro conto, “A Small Rain”, foi publicado através da revista literária da universidade em maio de 1959, mesmo ano em que se formou.

Thomas Pynchon começou a escrever seu primeiro romance, enquanto trabalhava como escritor técnico para a Boeing. Seu livro de estréia, ” V. ” ,  foi publicado em 1963 e ganhou o prêmio de melhor romance do ano da Fundação William Faulkner. Em 1989 recebeu o prêmio da Fundação MacArthur.

A partir da publicação de seu terceiro e mais famoso livro, “O Arco-Íris da Gravidade “ (1973), Pynchon tornou-se notório por sua fuga da exposição pública. Poucas fotos suas são conhecidas .

” O Arco Íris da Gravidade ” chegou a ser eleito como a melhor obra de ficção pelos juízes do Prêmio Pulitzer em 1973. Mas o conselho curador do prêmio decidiu não concedê-lo a Pynchon, considerando o livro “ilegível” e “obsceno”.

O escritor, a essa altura, já completava uma década de sua famosa reclusão. Um dia ele simplesmente fugiu de ônibus, quando um repórter do semanário Time ia entrevistá-lo sobre ” V. “, e nunca mais fez nenhum tipo de aparição pública.

Atualmente  Thomas Pynchon vive em Manhattan , com sua mulher e agente Melanie Jackson e seu filho Jackson Pynchon.

OBRA :

O Arco Íris da Gravidade

Capa de " O Arco Íris da Gravidade "

  • V. (1963), vencedor do prêmio da Fundação William Faulkner – no Brasil, editado pela Paz & Terra
  • O Leilão do Lote 49 (1966), vencedor do prêmio da Fundação Richard e Hilda Rosenthal – no Brasil, editado pela Cia das Letras. Atualmente, fora de catálogo.
  • O Arco-Íris da Gravidade (1973), National Book Award de ficção, escolha unânime do Prêmio Pulitzer recusada pela banca de organizadores, William Dean Howells Medal da American Academy of Arts and Letters em 1975 (recusado) – no Brasil, editado pela Cia das Letras.
  • Slow Learner (1984), coleção de contos – não existe edição em português.
  • Vineland (1990) – no Brasil, editado pela Cia das Letras
  • Mason & Dixon (1997) – no Brasil, editado pela Cia das Letras.
  • Against the Day (2006) – não traduzido
  • Vício Inerente (2009) – no Brasil, editado pela Cia das Letras.

Os temas recorrentes da obra de Thomas Pynchon são a paranóia e a entropia e suas relações com o mundo moderno.

Através da ficção literária , Thomas Pynchon faz migrar o conceito de entropia de seu contexto original das ciências naturais ( a Física e , mais especificamente , a Termodinâmica )  para as ciências sociais . Assim a civilização moderna é caracterizada – de forma análoga ao universo – por perder constantemente a “energia” que a mantém coesa, cedendo espaço para a desordem, o caos e a indiferenciação. 

Sua ficção abrange diversos campos, como física, matemática, química, filosofia, (para)psicologia, história, mitologia, ocultismo, música pop, quadrinhos, cinema e drogas ; unindo-os de maneira – ao mesmo tempo – picaresca, humorística, absurda, poética e sombria. A preocupação central da obra de Pynchon é explorar a acumulação e a inter-relação entre estes diferentes conhecimentos, que resultariam em uma realidade entrópica, tangível apenas pela paranóia.

Seus livros são geralmente reconhecidos pelos leitores por serem , quase sempre , calhamaços de mais ou menos 1000 páginas , com centenas de personagens – que somem e reaparecem ( com outros nomes ! ) – ao longo dos enredos , recheados de narrativas paralelas e longas digressões .

Mas o principal personagem da prosa pynchoniana pode ser considerado a própria linguagem , que – ao longo do texto – vai ganhando uma densidade  cada vez maior , até que alcança uma dimensão quase que poética . A paranóia aparece então como o elemento que faz a mediação , articulando a realidade mais banal e abjeta ( como merda flutuando dentro de uma privada entupida ) com a mais sublime abstração sobre a natureza do mundo celestial ( como , por exemplo, a especulação sobre a existência de um hipotético ” éter sônico ” ) .

Thomas Pynchon aparece em episódio de " Os Simpsons "

FRAGMENTOS DE PROSA PYNCHONIANA :

” Um grito atravessa o céu . Isso já aconteceu antes , mas nada que se compare com esta vez . “

Primeiro parágrafo de ” O Arco Íris da Gravidade ”

***

” Quem se arroga a Verdade, abandona a Verdade . A História é contratada , ou coagida , apenas em favor de Interesses que sempre se revelam vis. Ela é inocente demais para que a deixemos ao alcance de qualquer um que detenha Poder – que , bastando apenas tocá-la – faz desaparecer todo o seu Crédito no mesmo instante, como se jamais tivera existido . O que ela precisa é do cuidado amoroso e honrado dos fabulistas e falsários, Cantadores de Baladas e Excêntricos dos mais variados Raios, Mestres do Disfarce que lhe proporcionem as Vestimentas, os Adornos e o Porte, Discurso ágil o bastante para mantê-la fora do alcance dos Desejos, e mesmo da Curiosidade , dos Governos. “

trecho de  ” Mason e Dixon ”

***

” ( … ) Não esqueçamos que no fundo a Guerra é uma operação de compra e venda . Os assassinatos e os atos de violência se autopoliciam, podendo ser confiados a amadores . A natureza massificadora da morte em tempo de guerra é útil sob diversos aspectos . Serve como espetáculo, para desviar a atenção dos verdadeiros movimentos da Guerra . Fornece matéria prima para ser registrada na História , de modo que as crianças futuras possam estudar a História  como sequências de violências , batalha após batalha, e desse modo preparar-se melhor para a vida adulta . O melhor de tudo é que a morte em massa estimula pessoas comuns , os pequeninos, a tentar agarrar uma fatia do Bolo enquanto ainda estão aqui e podem comer . A verdadeira guerra é uma comemoração de mercados . Mercados Orgânicos, que os profissionais têm o cuidado de rotular de  “negros” , surgem por toda a parte . Libras esterlinas, marcos , ações continuam a circular , solenes como num balé clássico , em suas anti sépticas câmaras de mármore . Mas aqui embaixo , no meio do povo , surgem moedas mais verdadeiras . Assim os judeus são negociáveis . Exatamente como cigarros , bocetas e barras de chocolate .  ( … ) “

trecho de  ” O Arco Íris da Gravidade ”

***

As Nacionalidades estão em movimento . É uma grande correnteza sem fronteiras a fluir .  Volksdeutsch vindos do outro lado do Oder, expulsos pelos poloneses e seguindo em direção ao acampamento Rostock , poloneses fugindo do regime de Lublin , outros voltando para suas casas, os olhos de uns e de outros , quando se encontram , ocultos sob as saliências dos malares , olhos muito mais velhos do que aquilo que os forçou a se deslocar, estonianos, letões, lituanos voltando para o norte , toda a sua lã de inverno enrolada em fardos escuros, sapatos em frangalhos , as canções são difíceis demais para cantar, não há sentido em conversar , gente dos Sudetos e da Prússia Oriental indo e vindo de Berlim e dos campos de deslocados de guerra de Mencklenburg, thecos e eslovacos , croatas e sérvios, toscos e gheghes , macedônios , magiares , valáquios, circassianos, espanhóis , búlgaros mexidos no caldeirão do Império e transbordando , colidindo, cortando as distâncias, deslizando , apáticos , indiferentes a todo ímpeto que não o mais profundo , a instabilidade tão abaixo dos seus pés que não se pode dar-lhe forma, pulsos e tornozelos brancos incrivelmente descarnados a destacar-se dos pijamas listrados de prisioneiros , passos leves como passos de aves nesse pó interiorano , caravanas de ciganos , eixos e cavilhas quebrando , cavalos morrendo , famílias abandonando à beira da estrada veículos que servirão de abrigo noturno para outras, pelas Autobahns brancas e quentes , trens abarrotados de alemães nos vagões que atravessam os viadutos, dando passagem para comboios militares, bielorrussos sofridos seguindo para oeste , ex prisioneiros de guerra casaques marchando para leste , ex combatentes da Wehrmacht oriundos de outras partes da velha Alemanha , tão estrangeiros na Prússia quanto qualquer cigano , carregando suas mochilas surradas , embrulhados nos cobertores do exército que ainda guardam , os triângulos verde  claros de agricultor costurados à altura do peito em cada túnica oscilando , a uma certa hora do poente , como chamas de vela numa procissão religiosa  – hoje supostamente seguindo para Hanôver , supostamente catando batatas no caminho , já faz um mês que andam atrás dessas inexistentes plantações de batata – “Saqueadas” , um ex corneteiro mancando com um pedaço comprido de uma dormente à guisa de bengala , seu instrumento , curiosamente intacto e reluzente , a tiracolo , ” devastadas pelas SS, Bruder, já , todas as plantações de batata, e por quê ? Álcool . Não é para beber , não – álcool pros foguetes . Batatas que a gente poderia estar comendo , álcool que a gente poderia estar bebendo . Não dá pra acreditar .” ” O que , os foguetes ? ” ” Não, as SS, catando batatas ! ” olhando a sua volta para ver se alguém ri  . Mas aqui não há ninguém para seguir os floreios de seu coração menos solene  . Esses homens eram infantes , sabem cochilar entre um passo e outro – a alguma hora da madrugada vão sair  da forma e da pista, um precipitado momentâneo da química industrial  destas noites inquietas, enquanto o fervilhar invisível prossegue, os longos vórtices espalhados  – ternos listrados , com cruzes pintadas nas costas , uniformes da marinha e do exército esfarrapados , turbantes brancos, meias descasadas , sapatos sem meias , vestidos xadrez , grossos xales de tricô com bebês dentro, mulheres com calças de soldados rasgadas à altura do joelho , cães pulguentos latindo e correndo em bandos , carrinhos de bebês transportando pilhas de móveis leves de compensado arranhado , gavetas ajustadas à mão que nunca mais vão entrar em gaveteiro algum , galinhas roubadas vivas e mortas , trompas e violinos em estojos pretos surrados , colchas, harmônios, relógios de pêndulo, caixas de ferramenta de carpintaria , relojoaria , cirurgia e trabalhos em couro , retratos de filhas rosadas em vestidos brancos , santos sangrando , arrebóis marítimos salmão e violeta , malas contendo boás com olhos de conta , bonecas que sorriem com lábios violentamente vermelhos , soldadinhos Allgeyer de três centímetros de altura pintados de creme , dourado e prateado , punhados de ágatas centenárias mergulhadas em mel que adoçou linguas de bisávos há muito transformados em pó , depois banhadas em ácido sulfúrico para queimar o açúcar em faixas, variando de marrom a negro , imortais interpretações ao piano registradas  em rolos Vorsetzer, lingerie preta com lacinhos , talheres de prata com enfeites de flores e uva , garrafas ornamentais de cristal facetado, xícaras jugendstil em forma de tulipa , fios de conta de âmbar … e as populações se deslocam , atravessando o campo aberto , uns mancando , outros marchando , arrastando-se , sendo carregados , levando consigo os detritos de uma ordem , uma ordem européia e burguesa que , eles ainda não sabem , foi destruída para sempre. “

trecho de ” O Arco íris da Gravidade ”

***

” O que são as coxas abertas para o libertino, o vôo das aves migratórias para o ornitólogo, a parte móvel da ferramenta para o mecânico de produção , assim era a letra V para o jovem Stencil . Sonhava talvez uma vez por semana que fora tudo um sonho , e que agora que estava desperto ia descobrir que a busca de V. era apenas uma pesquisa escolar afinal , uma aventura da mente , na tradição de ” O Ramo Dourado ” ou da Deusa Branca  .

Mas logo despertava uma segunda vez, a vez real , e fazia de novo a cansativa descoberta de que aquilo na verdade nunca deixara de ser a mesma busca obstinada , literal ; V. ambiguamente uma besta venérea , caçada como o veado , a corça ou a lebre , caçada como uma forma mórbida, obsoleta ,  bizarra, ou esquecida, do prazer sexual . E o palhaço Stencil cabriolando atrás dela , chocalhos  badalando , brandindo um chuço de madeira , de brinquedo .

Seu protesto para Margravine di Chiave Lowenstein ( desconfiando de que o habitat natural de V. seria o estado de sítio , fora diretamente de Toledo a Mollorca, onde passara uma semana andando à noite pelo Alcazar, fazendo perguntas , recolhendo lembranças inúteis ) : ” Não é espionagem ” ,  fora , e ainda era , dito mais por petulância que por qualquer desejo de estabelecer alguma pureza de motivo . Gostaria que tudo pudesse ser tão respeitável e ortodoxo quanto a espionagem  .

Mas , de algum modo , em suas mãos as ferramentas e atitudes tradicionais acabavam sempre empregadas para fins menores : a capa para saco de roupa suja , a adaga para descascar batatas ;  os dossiês , para anotar tardes mortas de domingo ; pior que tudo , o próprio disfarce  não era para alguma necessidade profissional , mas apenas um truque ,  simplesmente para envolvê-lo menos na caça , passar parte da dor do dilema para várias “personificações ” .

Herbert Stencil , como as crianças em certo estágio e Henry Adams em “Educação” , e autocratas vários desde tempos imemoriais , sempre se referia a si mesmo na terceira pessoa . Isso ajudava ” Stencil ” a aparecer como uma das várias identidades do seu repertório . “Forçoso deslocamento de personalidade ” era o nome que ele dava à técnica geral , o que não é exatamente o mesmo que ” ver o ponto de vista de outro cara ” ; pois envolvia , digamos , o uso de roupas nas quais nem morto ele gostaria de ser apanhado , comer comidas que o fariam ter engulhos , morar em antros desconhecidos , frequentar bares e cafés de caráter não stenciliano , e tudo isso por semanas a fio ; e por quê ? Para manter Stencil em seu lugar  : isto é , na terceira pessoa .

Em torno de cada semente de dossiê , portanto , desenvolvera-se uma nacarada massa de inferência , licença poética , forçoso deslocamento de personalidade para um passado que ele não lembrava e ao qual não tinha direito , a não ser o direito de ansiedade imaginativa ou cuidado histórico , que não é reconhecido por ninguém . Ele cuidadva de cada concha marinha de sua fazenda submarina , terno e imparcial , movendo-se desajeitado em torno de seu cercado no leito do porto , evitando cuidadosamente o pequeno buraco bem no meio das conchas domesticadas , no fundo do qual só Deus sabia o que vivia : A ilha de Malta , onde seu pai morrera , onde Herbet nunca fora e da qual nada sabia , porque alguma coisa ali o mantinha à distância , porque o assustava . “

Trecho de ” V. “

***

” Nessa noite , 15 de Abril , David Ben – Gurion avisou ao seu país , num discurso do Dia da Independência , que o Egito planejava massacrar Israel . Uma crise no Oriente Média vinha se avolumando desde o inverno . A 19 de abril , entrava em vigor um cessar fogo entre os dois países  . Grace Kelly casava-se com o Príncipe Rainier III de Mônaco no mesmo dia  . A primavera esvaía-se assim , grandes correntes e pequenas marolas resultando igualmente em manchetes  . As pessoas liam as notícias que queriam e construíam de acordo com elas seus ninhos de rato com os trapos e palhas da história . Na cidade de Nova York  , só Deus sabia o que se passava pela mente dos ministros de gabinete , chefes de Estado e funcionários públicos  das capitais do mundo . Sem dúvida suas versões pessoais da história se mostravam em ações  . Se prevalecesse uma distribuição normal de tipos , mostravam-se  .

Stencil fugia ao padrão  . Funcionário público sem graduação , arquiteto de intrigas e conspirações por necessidade , devia ter-se inclinado , como seu pai , para a ação . Mas em vez disso passav seus dias numa certa vegetatividade , conversando com Eigenvalue , esperando que Paola revelasse como se encaixava naquela grande e gótica pilha de inferências que ele se esforçava por criar . Claro , havia também suas ” pistas ” , que ele perseguia agora afetadamente e apenas meio interessado , como se devesse afinal estar fazendo alguma coisa mais importante  .

Mas sua missão não se tornava mais clara , na verdade , do que a forma última daquela estrutura em V – não mais clara , na verdade , que o motivo pelo qual tivera de começar a buscar V . inicialmente . Sentia apenas ( dizia “por instinto ” ) quando um fiapo de informação era útil , quando não  : quando uma pista devia ser abandonada , quando acuada até o inevitável beco sem saída . Naturalmente , em investidas intelectualizadas como as de Stencil , não se pode tratar de instinto : a obsessão era contraída , sem dúvida , mas em que ponto ao longo do percurso , e como , diabos ? A menos que ele fosse , como insistia , apenas um homem do século , algo que não existe na natureza  . Seria simples , no dialeto de Rusty Spoon , chamá-lo de homem contemporâneo em busca de identidade  . Muitos deles já haviam concluído que este era seu problema  . O único problema era que Stencil tinha todas as identidades que podia aguentar convenientemente no momento: era , em seu estado mais puro , Aquele que busca V.  ( e quaisquer encarnações que isso envolvesse ), e ele não era mais sua identidade que o dentista da alma Eigenvalue ou qualquer outro membro da Turma .

Isso trazia , contudo , uma nota interessante de ambiguidade sexual . Que piada se no fim daquela caçada ele se visse frente a frente consigo mesmo sofrendo de uma espécie de travestismo da alma . Como a Turma iria morrer de rir . Na verdade ele não sabia qual seria o sexo de V. , nem mesmo seu gênero ou espécie . Seguir presumindo que a turista Victoria ou a ratzana de esgoto Verônica eram uma única e mesma V. não era nada que exigisse mentempsicose alguma  : apenas afirmar que sua caça se enquadrava na Grande , na cabala mestra do século ,como Victoria se enquadrava na conspiração de Vheissu e Verônica na nova ordem dos ratos . Se ela era um fato histórico , então continuava ativa hoje e agora , porque a última Conspiração Anônima ainda estava irrealizada , embora V. pudesse não ser mais ela do que um navio ou um país .

No início de maio , Eigenvalue apresentara Stencil a Bloody Chiclitz, presidente da Yoyodyne Inc. , uma empresa com fábricas espalhadas ao acaso pelo país afora e com mais contratos com o governo do que realmente sabia o que fazer deles.  Em fins da década de 40 , A Yoyodyne funcionava confortavelmente como a Cia de Brinquedos Chiclitz , uma lojinha de brinquedos minúscula de fabricação independente nos arredores de Nutley , New Jersey . Por algum motivo , as crianças da América conceberam por essa época um desejo simultâneo e psicopático de simples giroscópios , do tipo que se movimenta com um barbante enrolado em torno do eixo de rotação . Chiclitz, reconhecendo nisso um mercado potencial , decidiu expandir-se . Estava bem encaminhado para açambarcar o mercado de giroscópios de brinquedo quando surgiu um grupo de colegiais em excursão e observou que aqueles brinquedos funcionavam segundo o mesmo princípio do girocompasso .

– Do quê ? – perguntara Chiclitz .

Explicaram-lhe o girocompasso , e outros de outros tipos.

Chiclitz lembrava-se vagamente de ter lido numa revista comercial que o governo vivia sempre em busca dessas coisas no mercado . Usavam-nas em navios , aviões, e mais recentemente em mísseis . ” Bem ” , imaginou Chiclitz , ” e por que não ? ”  As oportunidades para pequenas empresas na época eram descritas como abundantes . Antes que ele soubesse como , estava também na instrumentação de telêmetros, componentes de aparelhos de testes, equipamentos de pequenas comunicações  . Continuou expandindo-se , comprando , fundindo-se . Agora, menos de dez anos depois , construíra um reino entrelaçado responsável por administração de sistemas , fuselagens aéreas , propulsão , sistemas de comando , equipamento de apoio de terra . Dyna  ( dina ) , dissera-lhe um engenheiro recém contratado , era uma unidade de força . Assim , para simbolizar os humildes começos do império Chiclitz e dar idéia de força , empreendimento, habilidade em engenharia , capacidade e brutal individualismo também , Chiclitz batizara a companhia de Yoyodyne .

Stencil percorrera uma fábrica em Long Island . Entre instrumentos de guerra , raciocinava , poderia surgir alguma pista da cabala . E apareceu . Ele vagava por uma região de escritórios , pranchetas de projetos , arquivos de plantas . Logo descobriu , sentado meio escondido numa floresta de arquivos, e bebendo de vez em quando o café em copo de papel que para o engenheiro de hoje é praticamente o uniforme do dia , um cavalheiro calvo e porcino , num terno de corte europeu . O engenheiro chamava-se Kurt Mondaugen , e trabalhara , sim , em Peenemunde, desenvolvendo Vergeltugswaffe Eins and Zwei .

A inicial mágica ! Em breve a tarde passara e Stencil marcara um encontro para renovar a conversa .

Mais ou menos uma semana depois , num dos escondidos cubículos laterais de Rusty Spoon, Mondaugen contava histórias, diante de uma abominável imitação de cerveja de Munique , sobre seus dias de juventude no Sudoeste Africano .

Stencil ouvia atento . A história propriamente dita e o interrogatório depois não levaram mais de trinta minutos . Contudo , na tarde da quarta feira seguinte , no consultório de Eigenvalue , quando Stencil a contou , a história sofrera considerável mudança : tornara-se, como disse Eigenvalue , stencializada . “

trecho de “ V.

***

ESCUTANDO A PRIVADA

A idéia básica é que Eles vão vir e desligar a água primeiro . Os criptozoários que vivem perto do medidor serão paralisados pela grande eclosão de luz vinda do alto …depois vão dispersar-se, enlouquecidos , rumo a níveis mais baixos , mais escuros , mais úmidos .  Fechada a água , a privada fica interditada : só restando um tanque cheio , não se pode mais livrar-se de praticamente nada : droga ,merda, documentos  . Eles bloquearam os fluxos de entrada/saída aqui , e você está preso no fotograma d’Eles, esperando que Eles acionem sua lâmina de montador . Lembrando-se , tarde demais , do quanto você depende d’Eles, menos da boa vontade do que da negligência : a negligência d’Eles é a sua liberdade . Mas quando Eles vêm é como Apolos de baile de debutante, tangendo a lira

ZONGGG

Tudo se imobiliza . O acorde doce , grudento , paira no ar … não há como sentir-se á vontade com ele . Se você tentar o gambito do “O senhor já terminou , superintendente ? ” , o homem vai responder  : ” Não , não terminei não , seu sujeitinho metido a besta . Você vai ter que me aturar por um bom tempo … ” .

Assim , não custa manter a válvula da descarga sempre um pouco aberta , para manter o fluxo na privada de modo que , quando parar , você tenha um ou dois minutos de lambuja . O que não é a paranóia normal de esperar que alguém bata à porta ou que o telefone toque  : não , há que ter uma doença mental específica para ficar sentado esperando o cessar de um ruído  . Porém –

Imagine esta mentira científica muito requintada  : o som não se propaga pelo espaço sideral . Pois bem , imagine que ele se propaga, sim . Imagine que Eles não querem que a gente saiba que existe um meio lá fora , o que outrora chamava-se “éter” , o qual permite que o som se propague para todas as partes da Terra . O Éter Sônico . Há milhões de anos que o Sol ruge , um rugido de fornalha gigantesca a 150 milhões de quilômetros, tão perfeitamente uniforme que incontáveis gerações de seres humanos nasceram e morreram ouvindo-o , sem jamais escutá-lo . Pois, desde que ele não se alterasse, como é que alguém poderia percebê-lo ?

Só que à noite , de vez em quando , em alguma parte do hemisfério escuro , devido a torvelinhos no Éter Sônico, ocorre um mínimo bolsão de silêncio . Por alguns segundos, num lugar específico , quase todas as noites em algum ponto do Mundo , a energia sonora que vem do espaço se interrompe .

O rugido do Sol pára . A breve existência desse cone de sombra acústica pode transcorrer a trezentos metros acima de um deserto , entre dois andares de um prédio comercial vazio , ou exatamente em volta de um indivíduo sentado num restaurante para trabalhadores onde lavam o chão com mangueiras às três da manhã todos os dias … tudo ladrilho branco , cadeiras e mesas cravadas no chão , comida coberta por mortalhas rígidas de plástico transparente … logo em seguida vem de fora o rrrnnn ! planc, guincho de válvula se abrindo e sim , ah sim , Lá Vêm Os Homens Das Mangueiras Para Lavar O Chão –

Eis que senão quando , sem aviso prévio , a ponta de pena da Sombra Sônica toca você , envolvendo-o em silêncio solar , digamos , das 2h36min18 às 2h36min24 , fuso horário central , horário de guerra , a menos que a localidade seja Dungannon, Virgínia, ou Bristol , Tennessee, ou Asheville ou Franklin , Carolina do Norte , ou Apalachicola , Flórida , ou quem sabe Murdo Mackenzie , Dakota do Sul , ou Phillipsburg , Kansas ou Stockton, Plainville, ou Ellis, Kansas – é mesmo , parece uma Lista de Homenageados , não é ?, sendo lida em algum lugar da pradaria , cores de fundição riscando o céu em longas calhas , vermelhas e roxas , multidão escura de civis eretos e quase se tocando , como talos de trigo , e um único velho de preto diante do microfone , lendo os nomes das cidades que perderam os filhos na guerra , Dungannon … Bristol … Murdo Mackenzie … cabelos brancos que um vento vossas – cidades – alabastrinas transforma numa juba , seu rosto velho , tenso e corroído polido pelo vento , amarelado da luz , os cantos das pálpebras descendo sérios cada vez que os nomes das cidades mártires , um por um , ecoam na bigorna da planície , e certamente Bleicheröde ou Blicero será mencionada agora  …

Pois bem , você está redondamente enganado , campeão  – essas cidades são todas localizadas nas fronteiras de Fusos Horários , só isso . Ha , ha ! Apanhei-te com a boca na botija . Vamos , agora mostre tudo que você estava fazendo ou então caia fora da área , não precisamos de gente da sua laia , não . Nada é mais asqueroso do que um surrealista sentimental .

“Pois bem – as cidades do Leste que citamos são todas do fuso horário do leste , em horário de guerra. Todas as outras da interface são do fuso central . As cidades do Oeste que acabam de ser lidas são do fuso central , enquanto as outras cidades daquela interface são do fuso montanhês … “

E isso é tudo que nosso Surrealista Sentimental , caindo fora da área , tem tempo de ouvir . Menos mal . Ele está mais envolvido , ou ” morbidamente obcecado ” , se você preferir, com o momento de silêncio solar dentro do boteco de ladrilhos brancos .  Parece-lhe um lugar onde ele já esteve ( Kenosha , Wisconsin ? ), se bem que ele não lembra em que circustâncias . Outrora o chamavam de ” Garoto Kenosha ” , se bem que isso talvez seja apócrifo . A essa altura , o outro recinto onde ele já esteve de que se lembra era uma sala em duas cores , só havia exatas duas cores , em todos os abajures , móveis , cortinas , paredes , teto , tapete , rádio , até mesmo as sobrecapas dos livros nas estantes – tudo era bem (1) Azul Marinho Escuro de Perfume Barato (2) Marrom Chocolate Cremoso de Sapato de Agente do FBI . Isso talvez tenha sido em Kenosha , talvez não . Se fizer força , ele vai conseguir lembrar , dentro de um minuto , como é que foi parar naquela sala de ladrilhos brancos trinta minutos antes da hora de lavar o chão com mangueiras . Ele está sentado , com uma xícara de café meio cheia , muito açúcar e creme de leite , restos de um folheado de abacaxi sob o pires, onde seus dedos não alcançam . Mais cedo ou mais tarde ele vai ter que levantar o pires para pegá-los . Ele está só adiando . Mas não é nem mais cedo nem mais tarde porque

a sombra sônica desce sobre ele ,

instala-se em torno de sua mesa, com as invisíveis superfícies alongadas do vórtice que a trouxeram aqui avançando como torvelinhos de um Folheado Etéreo , audíveis apenas graças a fragmentos eventuais de som que por acaso tenham sido envolvidos pelo redemoinho , vozes longínquas em alto mar nossa posição é vinte e sete graus vinte e seis minutos norte , uma mulher chorando em alguma língua aguda , ondas oceânicas em meio a um vendaval , uma voz recitando em japonês :

Hi wa Ri ni katazu

              Ri wa Ho ni katazu

                            Ho wa Ken ni katazu

                                             Ken wa Ten ni katazu

o que é o slogan de uma unidade de Camicases , equipada com Ohka – o significado é :

Injustiça não pode conquistar Princípio

Princípio não pode conquistar Lei

Lei não pode conquistar Poder

Poder não pode conquistar Céu

Hi , Ri , Ho , Ken , Ten saem falando japonês pelo longo torvelinho solar e deixam o Garoto Kenosha na mesa fixa , onde o rugido do Sol cessou . Ele está ouvindo , pela primeira vez , o caudaloso rio de seu sangue , o tambor titânico de seu coração .

Venha sentar-se  com ele à luz da lâmpada, com o estranho na pequena mesa de botequim . É quase hora da mangueira  . Veja se você consegue entrar na sombra também . Mesmo um eclipse parcial é melhor do que jamais descobrir –  melhor do que passar o resto da vida encolhido sob o grande Vácuo celeste que lhe ensinaram , e um Sol cujo silêncio você nunca ouve .

E se não houver vácuo ?  Ou se houver – e se Eles o estiverem usando para enganar você ? E se Lhes interessar pregar que a vida é uma ilha cercada por um vazio  ? Não apenas a Terra no espaço , mas sua própria vida individual no tempo  ? E se interessar a Eles que você acredite nisso ?

” Esse ai não vai nos incomodar por algum tempo ” , comentam Eles . ” Eu acabei de mergulhá-lo no Sono Escuro ” . Bebem juntos, injetam drogas sinteticíssimas sob a pele ou na veia , canalizam incríveis formas ondulatórias eletrônicas para dentro de Seus crânios, diretamente no bulbo raquiano , e falam um com o outro a meia voz , de brincadeira , rindo boquiabertamente  – você sabe , não é ? estampado naqueles olhos sem idade  … Falam em pegar Fulano e  ” mergulhá-lo no Sono ” . Usam a expressão referindo-se um ao outro , também , numa ternura estéril , quando as más notícias são transmitidas , nos Banquetes d’Escárnio anuais, quando as infindáveis brincadeiras mentais pegam um dos colegas desprevenido – ” Puxa , a gente mergulhou o fulano no sono direitinho ” Você sabe , não é ? . “

Trecho de  ” O Arco Íris da Gravidade

***

FONTES E LIGAÇÕES EXTERNAS :

PYNCHONWIKI

” É Tudo Mentira ! ” – entrevista ( fictícia ) com Thomas Pynchon – matéria publicada no Caderno ” Mais! ” da Folha de São Paulo, 25 de Abril de 2004

Verbete ” Thomas Pynchon ” da Wikipédia :  http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Pynchon

Site em português sobre as obras de Thomas Pynchon : http://www.zorked.net/pynchon/

Artigo “O Triunfo da Paranóia” por Martim Vasques da Cunha: http://www.dicta.com.br/o-triunfo-da-paranoia/

Artigo de Paulo Henriques Britto,  sobre a experiência de traduzir ” Mason e Dixon ” para o português : http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002005000200015&lng=en&nrm=iso

Revista Dicta&Contradicta, artigo “Thomas Pynchon : A paranóia e o underground”, por Luis Felipe Amaral : http://www.dicta.com.br/edicoes/edicao-4/thomas-pynchon-a-paranoia-e-o-underground/

Resenha do livro “ O Leilão do Lote 49 por Eduardo Haak : http://www.eduardohaak.kit.net/pynchon.html

Resenha do livro ” O Arco Íris da Gravidade ” , publicada na Revista Época : http://epoca.globo.com/edic/19980803/cult7.htm

Resenha do livro ” O Arco Íris da Gravidade ” , publicada na Revista Veja : http://veja.abril.com.br/120898/p_138.html

Resenha do livro “Vício Inerente” : http://blog.meiapalavra.com.br/2010/12/29/vicio-inerente-thomas-pynchon/

Resenha do livro “Vício Inerente”, publicada em O Globo : http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2010/12/18/desbunde-paranoia-em-novo-livro-de-thomas-pynchon-350300.asp

Resenha do livro “Vício Inerente”, publicada no Estadão : http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-dimensao-paranoica-de-pynchon,415744,0.htm

Conto “Entropia”, de Thomas Pynchon (traduzido para o espanhol). Publicado originalmente na coletânea Slow Learner  (1984) : http://pt.scribd.com/doc/35659444/Thomas-Pynchon-Entropia#archive

Análise do conto “Entropia”,  de Thomas Pynchon ( em inglês ) : http://www.pynchon.pomona.edu/slowlearner/entropy.html

Editando seu autor favorito ( por André Conti ) : http://www.blogdacompanhia.com.br/tag/thomas-pynchon/

O mistério em Thomas Pynchon : http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=3342&titulo=O_misterio_em_Thomas_Pynchon

Verbete “Thomas Pynchon” da Desciclopédia : http://desciclopedia.org/wiki/Thomas_Pynchon

Vídeo do novo livro de Thomas Pynchon , ” Inherent Vice ” , no qual o próprio autor interpreta a voz do personagem principal , um detetive hippie passeando pelas ruas de Los Angeles .

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: